Reunião (27/10) do Grupo Hume cancelada

No dia 27/10, haverá uma paralisação no curso de Filosofia da UFMG contra a PEC 241, que corta gastos em educação e pesquisa, e a MP 746, eu reforma o Ensino Médio sem o devido debate com a população. A PEC 241 coloca em risco o trabalho de grupos de pesquisa como o GH, ao limitar as possibilidades de financiamento da pesquisa na academia brasileira.

Dessa forma, a reunião de quinta-feira do Grupo Hume será CANCELADA em apoio à paralisação feita pelos estudantes da filosofia. As reuniões dos demais grupos de pesquisa coordenados pela Professora Lívia também estão canceladas.

Convidamos todas e todos para participar das atividades da paralisação:

– 8:00 Microfone aberto (Sarau/Ocupação cultural – CAFCA);
– 9:30 Assembleia estudantil da Filosofia (diurno);
– 11:30 às 13:00 Atividade do PET – Debates Forjados com os professores Newton Bignotto e Helton Adverse (a confirmar);

– 13:00 às 15:00 Ocupação cultural – CAFCA (pixadores); 
– 15:00 Debate diurno – PEC 241, MP 746 e ocupações de escolas e universidades como método de mobilização (participantes em aberto);
– 17:00 Ato na Av. Antônio Carlos, convocado pela filosofia e incorporado por outros setores da universidade;
– 19:00 Debate noturno – PEC 241, MP 746 e ocupações de escolas e universidades como método de mobilização (participantes em aberto);
– 20:00 Assembleia estudantil da Filosofia (noturno).

Adeus à racionalidade

Há alguns anos publiquei num post intitulado Operações do Universo Mental uma passagem da obra de Hume, intitulada Investigação sobre o Entendimento Humano, na qual ele chama a atenção para os poderes e limites do pensamento humano. Vou repetir o que escrevi ali para alcançar o ponto que me interessa aqui.

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Diz Hume: “Nada, à primeira vista, pode parecer mais ilimitado que o pensamento humano, que não apenas escapa a todo poder e autoridade dos homens, mas está livre até mesmo dos limites da natureza e da realidade. Formar monstros e juntar as mais incongruentes formas e aparências não custa à imaginação mais esforço do que conceber os objetos mais naturais e familiares. E enquanto o corpo está confinado a um único planeta, sobre o qual rasteja com dor e dificuldade, o pensamento pode instantaneamente transportar-nos às mais distantes regiões do universo, ou mesmo para além do universo, até o caos desmedido onde se supõe que a natureza jaz em total confusão. Aquilo que nunca foi visto, ou de que nunca se ouviu falar, pode ainda assim ser concebido; e nada há que esteja fora do alcance do pensamento, exceto aquilo que implica uma absoluta contradição” (IEH 2 § 4: 25).

Creio que a passagem pode ser explicada do seguinte modo: nossa mente, “constituída unicamente de percepções sucessivas” (TNH 1.4.6.4), tem em seu aparato cognitivo duas faculdades fundamentais: a da imaginação e a da memória. Com elas, a mente opera da seguinte forma: copia as ideias fornecidas pelos sentidos, armazena-as na memória – que funciona como um arquivo de dados, no caso aqui, como um arquivo de ideias. Daí a faculdade da imaginação serve-se dessas ideias armazenadas (e também daquelas que a mente constantemente copia das impressões e sensações), estabelecendo certas relações que, num jogo de reflexões e/ou associações, mistura, combina, separa, divide, transpõe, reduz ou estende essas ideias que, por sua vez, dão origem a novas impressões e ideias. Assim, mas evidentemente não de maneira tão simples, Hume nos mostra como a mente opera na aquisição do conhecimento das coisas e do mundo e, ainda, como ela ultrapassa “os limites da natureza e realidade” criando deuses, formando anjos, monstros, demônios e, se se quiser, as mais diversas barbaridades.

Pois bem, chamo agora a atenção para a afirmação de que não existe “nada que esteja fora do alcance do pensamento, exceto aquilo que implica uma absoluta contradição” (IEH 2 § 4: 25). Ora, como assim? O que é que implica uma absoluta contradição e que, por isso, está irremediável e decididamente fora do pensamento humano? Um exemplo esclarecedor (sarcástico e muito bem humorado) pode ser encontrado num livro sui generis intitulado: O porco filósofo: 100 experiências de pensamento para a vida cotidiana. A experiência de pensamento que vem aqui ao encontro dessa passagem é um diálogo entre Deus e um filósofo, cujo título é O círculo quadrado. Vamos lá:

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“E Deus falou para o filósofo:
– Eu sou o Senhor teu deus, e sou Todo-poderoso. Não há coisa alguma que você possa dizer que não possa ser feita. É fácil!
E o filósofo falou para o Senhor:
– OK, oh, poderoso. Transforme tudo que é azul em vermelho e tudo o que é vermelho em azul.
O Senhor disse:
– Que se faça a inversão de cores! – E a inversão de cores foi feita, deixando completamente confusos os porta-bandeiras da Polônia e de São Marino.
Então o filósofo falou ao Senhor:
– Se quer me impressionar, faça um círculo quadrado.
E o Senhor falou:
– Faça-se um círculo quadrado. – E foi feito.
Mas o filósofo protestou.
– Isso não é um círculo quadrado, isso é um quadrado.
O Senhor ficou com raiva.
– Se eu digo que é um círculo, é um círculo. Cuidado com essa sua impertinência, ou posso parti-lo em pedacinhos.
Mas o filósofo insistiu.
– Eu não pedi para mudar o significado da palavra ‘círculo’ só para que ela passasse a significar ‘quadrado’. Eu queria um verdadeiro círculo quadrado. Admita… isso é algo que não pode fazer.
O Senhor pensou um pouco, então resolveu responder lançando sua vingança poderosa sobre a cabeça do filósofo metido a esperto” (Baggini: 2006: 77).
Conforme explica o autor desse diálogo zombeteiro (e que, para alguns, certamente soará profano), “o problema com coisas como círculos quadrados é que são logicamente impossíveis. Como um círculo é por definição uma forma de um lado, e o quadrado de quatro, e uma forma de quatro lados e de um lado é uma contradição de base, então um círculo quadrado é uma contradição de base e é impossível em todos os mundos possíveis. A racionalidade exige isso. Então, se quisermos dizer que a onipotência de Deus significa que ele pode criar formas como quadrados redondos”, teremos necessariamente de dar “adeus à racionalidade” (Baggini: 2006: 78).
Referências das obras aqui citadas:
HUME. Uma Investigação Sobre o Entendimento Humano (IEH). Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Unesp, 1999. HUME. Tratado da Natureza Humana (TNH). Tradução de Déborah Danowski. São Paulo: Unesp, 2001. BAGGINI, Julian. O porco filósofo: 100 experiências de pensamento para a vida cotidiana. Tradução de Edmundo Barreiros. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.
Tela: CHAGALL, Marc. Il cantico dei cantici IV (1958).
[por Marília Côrtes de Ferraz]